LIFESTYLE - 01/03/2016

Conheça a mulher mais poderosa de Goiás

Secretária da Fazenda, Ana Carla Abrão tem um currículo invejável. No entanto, sua história mos-tra que não só os títulos a fazem um exemplo



Alexandre Parrode

Ana Carla Abrão é uma mulher poderosa, na acepção mais pura da palavra. Goiana, filha do ex-governador Irapuan Costa Jr. e da senadora Lúcia Vânia, tem uma carreira profissional invejável.

Titular de uma das pastas mais importantes da administração pública de Goiás – a Secretaria da Fazenda –, é formada em Economia pela Universidade de Brasília, tem mestrado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro, e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Já ocupou cargos de destaque no Banco Central e no Itaú Unibanco, onde foi diretora. Workaholic assumida, Ana Carla tem quatro filhos e contou à Zelo como foi crescer em uma família de políticos.

ZELO – A senhora não tinha nenhuma ligação com o poder público e com a política. Por que veio para Goiás?

Carla Abrão – Minha mãe até brinca que passou a vida inteira me escondendo e aí o governador me achou lá em São Paulo. E é verdade. Eu nunca tive nenhuma relação com a vida pública da minha mãe ou do meu pai. Fiz a minha carreira toda no mercado privado.

ZELO – E como foi crescer em uma casa de políticos?

Carla Abrão – Passei minha vida fora de Goiás, no mercado financeiro, mas hoje entendo que o que eu vivi quando criança, junto a meus pais, na vida pública deles, em certa medida me ajuda muito a lidar com algumas coisas e a ter sensibilidade política. Embora eu tenha uma formação técnica e minha vida tenha sido sempre em um mundo muito técnico, acho que a habilidade política dos meus pais de alguma forma está no meu DNA.

ZELO – Morou em Goiânia até quando?

Carla Abrão – Mudei-me aos 14 anos. Fui para a Suíça com uma amiga, fiquei um ano. Depois passei seis meses na Inglaterra e, quando voltei ao Brasil, morei no Rio de Janeiro, onde fiquei mais um ano. Voltei para Goiânia, fiz o ginásio e passei em Economia na UnB.

Depois de formada, fui fazer mestrado no Rio de Janeiro, na Fundação Getulio Vargas. Fiquei no Rio por 12 anos, porque conheci o meu primeiro marido no mestrado [ele também é economista]. Casei-me, tive meus dois primeiros filhos e só depois é que fui para São Paulo.

ZELO – Por que Economia? Era uma profissão majoritariamente masculina, não é?

Carla Abrão – Somos aquilo que vivemos. Meu pai sempre foi uma pessoa muito culta. Ele tinha o banco [Banco Comercial Brasileiro – BBC] e sempre sonhei em trabalhar lá. Assim, Economia foi um caminho natural. Sobre ser uma profissão mais masculina, sim, é verdade, mas eu tive o exemplo da minha mãe. Ela sempre rompeu barreiras, em um Estado como Goiás, e àquela época, foi a primeira mulher a exercer tantos postos de destaque.

ZELO – E a senhora nunca teve problema com machismo ou mesmo preconceito?

Carla Abrão – Preconceito, não, mas eu digo que aqui, no Rio ou em São Paulo, o fato de ser mulher sempre dificultou as coisas. No próprio banco do meu pai, tive que romper a ideia de que estava ali por ser a filha do dono – e ainda mulher. Depois, no Itaú, que é muito tradicional, em 99% das reuniões, era a única mulher. Além disso, fazia controle de risco de crédito. Era a pessoa que tinha que dizer “não” para um monte de homens que estavam ali querendo ganhar dinheiro. O Itaú tem uma mulher no comitê executivo. Em cargos de direção, menos de 10% são mulheres.

ZELO – Então, mesmo hoje, ainda é uma realidade?

Carla Abrão – Em todos os lugares. No entanto, eu falo muito com meninas que me procuram e perguntam como é seguir a carreira, como é ser mulher em um mundo tão machista. Perguntam-me como concilio vida profissional com quatro filhos. Tudo é uma questão de postura. Nunca sofri preconceito explícito. É claro que existe de forma velada, mas depende muito da maneira como você se posta diante da sociedade.

ZELO – Como é ser mãe de quatro filhos?

Carla Abrão – Eu digo que tive uma condição privilegiada. Quando ganhei meu primeiro filho, estava trabalhando no banco e quando ele completou um mês, voltei a trabalhar. Na verdade, com nenhum deles eu tirei licença-maternidade completa. O último, fiquei 15 dias em casa, e olha que todos foram amamentados até os seis meses apenas com leite materno. Tive a sorte de ter conseguido manter minha carreira quase que sem interrupção, apesar de quatro vezes grávida. E todos eles nasceram de parto normal e no final de semana. Impressionante (risos).

ZELO – Todos eles moram aqui?

Carla Abrão – Não. Todos eles moram em São Paulo. A sorte de ter duas gerações é que os mais velhos ajudam muito com os mais novos. Mas eu vou todos os finais de semana, até porque os pequenos sentem muito a minha falta.

ZELO – A Sra. é uma mãe rígida?

Carla Abrão – Super. Eles me dizem o tempo todo: “Mamãe, deve ser péssimo trabalhar ao seu lado, porque você é muito rigorosa.” Falo sempre que temos de ter organização e rotina para poder conciliar as coisas.

ZELO – Dá para controlar tudo isso daqui?

Carla Abrão – Dá! Hoje tem WhatsApp! Tomo café da manhã e janto com meus pequenos todos os dias via FaceTime. A tecnologia permite que a gente esteja próximo, mesmo de longe.

ZELO – Ainda tem casa em São Paulo?

Carla Abrão – Tenho. Minha casa é lá. Eu só trabalho em Goiânia. Vim desempenhar uma função, porque acredito no projeto do governador Marconi Perillo, nada mais que isso. Aqui fico na casa da minha mãe. Não tenho planos de me mudar para cá.

ZELO – O que mais sente falta?

Carla Abrão – Engraçado que, quando saí do Rio de Janeiro e fui para São Paulo, achei que nunca fosse me acostumar... Pensava: “Que cidade feia. Aqui só há tons de cinza, não tem montanha, nem dias bonitos, ou praia.” Mas hoje, definitivamente, prefiro São Paulo. É uma cidade incrível.

Tirando os filhos, amigos e meu marido, a cidade oferece o que fazer de segunda a segunda: cultura, museus, teatro... É um lugar notívago, menos diurno, e eu também sou. Sou muito urbana e adoro sair. Quando morava lá, saía pelo menos cinco vezes por semana. Tinha uma vida social muito agitada. Hoje ainda tenho, mas concentrada só no fim de semana.

ZELO – No cenário político, é notório que ser mulher é um grande obstáculo. Isso é uma questão de mercado ou é só na vida pública mesmo?

Carla Abrão – É uma questão cultural e no mundo todo. Sempre fui ativista da causa feminina e estudo muito sobre o assunto. A mulher sempre foi preterida, criada de forma diferente. Ela tem menos oportunidade, pressão social diferente, e isso não é apenas uma questão masculina, mas também feminina.

Costumo dizer que a maternidade não é uma restrição. Eu mesma já ouvi uma pessoa dizer: “Se você não tivesse tido quatro filhos, imagina aonde você teria chegado, a carreira que você teria tido?” Eu sempre respondo: “Bom, se eu não tivesse tido meus quatro filhos, eu não seria quem eu sou.” Aonde eu cheguei, cheguei por causa dos meus quatro filhos, que me fazem ser quem eu sou. Eles, inclusive, me ajudam a ser quem eu sou. Uma boa gerente, uma gestora melhor de pessoas, que eu não seria se não tivesse que gerir minha casa com quatro filhos, trabalhando 18 horas por dia.

ZELO – A presença da mulher ainda é muito pequena no mercado de trabalho.

Carla Abrão – Sim. Em todos os segmentos. Analisando postos de mais destaque em todos os setores, à medida que se vai subindo, o número de mulheres vai raleando. Elas têm de quebrar barreiras, porque a própria promoção normalmente é concedida por um grupo de diretores, que é formado majoritariamente por homens. Os diretores tendem a buscar nas pessoas, que querem ter trabalhando com eles, profissionais com características próximas às deles. Isso é comprovado. Ou seja, é muito mais fácil promover um homem, mesmo que haja uma mulher igualmente qualificada, porque ele se identifica mais com outro homem. Isso dificulta ainda mais a ascensão da mulher. 

ZELO – Nesses sete meses de trabalho em Goiás, houve algum momento em que pensou em desistir, arrumar as malas e voltar a São Paulo?

Carla Abrão – Não. Nenhum dia. Passei momentos muito difíceis, todos eles vinculados ao pagamento da folha dos servidores públicos. São dias em que você toma decisões e percebe que está mexendo na vida de muitas pessoas. São dias pesados.

Ao contrário do Itaú, onde o que eu decidia afetava um grupo de acionistas, aqui são decisões que mexem com 7 milhões de pessoas. É um cargo muito pesado.

Foto: Ângela Motta

Matéria publicada na 33ª edição da revista Zelo

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